Foto: Beatriz Moreira

Painel sobre Cultura Digital reune representantes de mais de 10 países latinos em La Paz

Da crise da representatividade às soluções alternativas digitais

Apesar do atraso, que representa nada mais do que a organicidade das relações e ações no I Congresso Latinoamericano de Cultura Viva Comunitária e neste belíssimo país onde ele se realiza, o painel Dados Abertos, Participação, Educação e Democracria Digital lotou o auditório da Cinemateca Boliviana. De que maneira as tecnologias da informação e comunicação vão nos ajudar a construir todos os modelos e alternativas que tanto buscamos nos campos da educação, cultura, saúde, mobilidade, alimentação, infra-estrutura, moradia e ação política?

Nos 26 sítios do governo boliviano, apenas um é bilingue: espanhol e inglês. No entanto, há 38 comunidades linguísticas reconhecidas na Bolívia e, existe um receio de que as que não forem digitalizadas, desaparecerão ao longo do século 21. E não se trata apenas de preservação, é um direito ser visível. Existe um direito inclusivo à Comunicação que não é contemplado pela simples liberdade de expressão. Ter acesso a uma rede e a ferramentas livres que permitam a indivíduos, grupos, coletivos e comunidades expressarem sua cultura viva deve ser reconhecido como direito de todas e todos.

É como o Centro de Gestão Cultural Pukañawi, da tradição Quechua, que entre 22 a 28 e julho de 2013 promove o a sétima edição do Festival Internacional de Cine de los Derechos Humanos, em Sucre. Segundo o responsável, Humberto Mancilla, só foi possível realizar todas as edições anuais deste evento por conta do poder organizativo e da visibilidade que o acesso a um espaço próprio nas redes em redes propicia. Acontece que o sítio, mesmo com diferentes ferramentas, é apenas um primeiro passo.

Ter um mapeamento, em que seja possível georreferenciar, ou seja, cruzar um ponto no mapa com dados – neste caso relacionados a agentes, grupos, coletivos e redes culturais – é permitir mais do que expressar a natureza de cada um, é evidenciar essa expressão a ponto de ser identificada e localizada. Isso significa poder, por exemplo, organizar eventos entre diferentes grupos ou redes, mas também articular pautas em comum no campo da disputa política e da sociedade como um todo.

No caso do Peru, onde a organização Dateo.org realizou uma série de mapeamentos, foram levantadas várias irregularidades tanto no tocante à transparência do governo quanto nas relações entre diferentes organismos, que não conseguiam visualizar um ao outro, mesmo que fossem complementares. “Depois do mapeamento, vimos que a informação não bastava, que era necessário ação”, conta Diego de La Cruz, que tem formação jurídica. Foi por isso que a organização passou também a incidir junto ao poder público e a articular outros grupos no sentido de transformar aqueles dados em mudanças concretas e projetos.

Assim foi com o projeto Donos do Brasil, que mapeou as redes empresariais, gerando um índice de poder acumulado e um ranking das chamadas controladoras últimas, que não são subordinadas a nenhuma outra. “O faturamento somado dessas empresas representa 50% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Dentre elas, 12 detêm 50% do dinheiro. Esse 1% recebe muito investimento público através do Banco Nacional pelo Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de financiar campanhas eleitorais, gerando um ciclo de concentração de renda ligado ao poder”, explica Adriano Belisário.

Foto: Beatriz Moreira

Foto: Beatriz Moreira

Mas, “de que maneira tornar os governos, instituições e políticas públicas permeáveis à incidência popular”, questinou João Paulo Mehl, do Coletivo Soylocopoti, que atua na cultura digital pela integração latinoamericana. Mais do que disponibilizar as informações a agir em cima delas, é essencial por um lado ter algum mecanismo receptor por parte do Estado e, por outro e principalmente, algum que materialize essa demanda por parte das organizações. Aí é que a democracia digital se coloca não só como mecanismo institucional, mas também comunitário.

Inclusive, pergunta o representante da Rede de Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul (Brasil), Leandro Anton, “qual é o grau de controle social que nossas próprias orgniazações, comunitárias, têm”? A boa pergunta tem a ver com os processos internos, tanto de deliberação para tomada de decisões, quanto da disponibilidade dos dados, prestações de contas e acervo. Quem sabe esta não é uma daquelas perguntas que podemos responder de baixo para cima, de dentro para fora, de modo que para incidir digitalmente, diretamente, na sociedade talvez precisemos primeiro abrir nossos próprios dados, ferramentas e métodos para uma grande apropriação cultural em redes.

 

Este texto é uma contribuição para a Comunicação Compartilhada do I Congresso Latinoamericano de Cultura Viva Comunitária e foi produzido por Phillipe Trindae, comunicador e integrante do Coletivo Soylocoporti. As fotos são de Beatriz Moreira, também comunicadora e integrante do Soylocoporti. A iniciativa consiste no entendimento da comunicação como ação política e não apenas como canal de circulação de informações. Trata-se de um processo de interpretação da realidade desenvolvido colaborativamente em contraposição à lógica competitiva da mídia de massas. Para saber mais, acesse: www.congresoculturavivacomunitaria.org/

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