Depoimento de Ivan Nogales à Caravana Por La Paz

Uma maré dança nos olhos de Marcelo das Histórias, como chamas de fogo e ao mesmo tempo ondas suaves, acompanhados de sua voz veemente impetuosa, sonora e potente de contador de histórias:

“Vi os corpos,  cansados,  que chegaram com seu enorme caminhão ao Rio de Janeiro.  Meninos e meninas armando as estruturas de ferro,  apesar do cansaço. Ficamos boquiabertos, vieram-me lágrimas ao vê-los. Todos comentavam sobre esta caravana incrível que havia chegado da Bolívia. Até hoje seguimos falando.” disse Marcelo.

Sua emoção é de uma eloqüência de narrador e alimenta a narrativa desta caravana, constituída pelos corpos que fizeram a travessia,  e de vozes como a de Marcelo que a contam inúmeras vezes, num rito continental.

Esta ação, a Caravana por La Vida – de Copacabana a Copacabana,  protagonizada por nosso  grupo Teatro Trono por ocasião da Cúpula dos Povos, Rio+20,   tem provocado reações inesperadas. Não é fácil digerir nem ao menos explicar o acúmulo de abraços, as demonstrações de afeto, respeito e carinho que os brasileiros inicialmente nos expressam e demonstram, assim como posteriormente  fizeram os  irmãos e irmãs latino-americanos.

Estas circunstâncias fizeram com que o TRONO seja, agora, o grupo organizador do primeiro Congresso Latinomericano de Cultura Comunitária, a realizar-se em La Paz – Bolívia, de 18 a 22 de maio.

Estamos correndo contra o tempo!

Um evento desta magnitude requer uma logística e capacidade de organização que ultrapassa a capacidade e as condições físicas de um grupo. Isso nos obriga a somar com outros e outras. Assim, o movimento e a necessidade de articular em rede cresce e se fortalece.

Cerca de 600 latino-americanos chegarão a La Paz nas caravanas que partem de Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Foz do Iguaçu, Buenos Aires, Lima, Medellin, Bogotá, Cali, San José, e várias cidades centro-americanas, incluindo duas pequenas delegações da Espanha e do Quebec – sem contar as adesões pessoais da Alemanhã, Estados Unidos e outros países. Somadas as caravanas bolivianas seremos milhares de pessoas, assaltando poeticamente La Paz.

Nos últimos meses estamos correndo para alcançar esta ambiciosa meta. Articular o setor criativo para que as caravanas tenham apoios em suas passagens por cidades como Santa Cruz, Cochabamba, Tarija, Sucre, Potosí e Oruro. Não é tarefa fácil. Na Bolivia, a Rede Telartes tem sido, sem dúvida, a articulação nacional com pouco tempo de vida e a mais importante, senão a única fortalecida com a iniciativa da caravana “Por la Vida 2012” e com esse congresso.

Junto a Rene Antezana – destacado por todos os grupos nacionais para assumir este cargo de coordenador da Telartes- viajamos há poucas semanas por todas as cidades mencionadas anteriormente, para que todos os grupos de todos os cantos se somem a esta iniciativa do Congresso Cultura Viva Comunitária e alcançem, desta maneira, um velho e sempre sonho coletivo: que o nosso setor tenha, por fim, um processo de juntar vontades que nos permitam despontar no século XXI como atores e protagonistas de transformação social, de sermos interlocutores capazes de negociar políticas públicas que beneficiem ao setor, e fundamentalmente, permitam alçar aspirações de mudanças sociais. Soa pretensioso, porém, é! Esta viagem também foi muito útil para a reticular o apoio dos municípios, governos e todos que estiveram diante de nós conversando cara a cara.

Porém, a Caravana Por la Vida segue seu caminho. Hoje, (24 de março de 2013) concluímos uma ampliação desta Caravana no território brasileiro. É uma junção da importância da caravana mencionada a princípio, mas que agora tem um nome de retribuição de gentil dos Brasileiros à  Bolivia, ao Trono e ao Congresso de Cultura Viva Comunitária:  Caravana Por La Paz.

A Caravana por La Paz floresceu na profunda viagem  pelo Brasil que fizemos com Alexandre Santini e Marcelo das Histórias. Em São Paulo, Brasília e Rio percorremos uma quantidade de grupos, instituições públicas, universidades, rostos, aplausos, compromissos e uma cumplicidade cada vez mais sólida da Caravana por La Paz com a Caravana pela Vida. Brasil e Bolivia debatem cultura e não apenas negócios.

Iniciamos na casa Fora do Eixo, em grande estilo, com a presença de Pablo Capilé rodeado de uma geração de hackers. Ninjas como eles dizem fazendo da gestão pública um tema de desterritorialização mediante a “máquina mágica”, a internet rápida, a habilidade e criatividade como imperativos morais. Daí em diante, como quartéis de guerrilha urbana vivemos as casas do Fora do Eixo, em todas as cidades, e desde então operamos como um trio de inconformados.

Juca Ferreira, Célio Turino, TC e Tainá, Everaldo, Marcelo e Nina, Sebatián e muitos outros de grupos em comunidades quilombolas, de teatro, de universidades, políticos com discursos comprometidos com a cultura viva comunitária, e com compromissos concretos para congresso e a Caravana por La Paz. Cerca de 100 passagens de São Paulo, 30 de Brasília, mais de 70 do Rio, além de ônibus, estão sendo preparados para os  caravaneiros. Marcia Rollenger, da Secretaria de Cidadania Cultural, (cargo ocupado por Célio Turino anos trás), nos recebeu com toda sua equipe e recebeu a proposta com carinho. Na Comissão de Cultura da Câmara Federal, fomos recebidos pela presidente Jandira Feghali, a quem propusemos uma convocatória para discussão de uma plataforma, o que foi aceito por Jandira, que nos indicou a criação de um parlamento Latinoamericano de Cultura Viva Comunitária. Muitos outros que se identificam com esta proposta continental e a absorvem, dão forma, ampliam visões, resumindo, passam a fazer parte.

Finalizamos este giro com um programa de Web TV à sombra do Pão de Açucar, sob o olhar do Cristo Redentor, as praias e o calor daquela gente. Com Ivana Bentes, Célio Turino, Geo Britto e eu dialogamos os caminhos futuros das caravanas que teremos que realizar para que a Cultura Viva Comunitária não seja ameaçada, para defender as conquistas até agora alcançadas no Brasil, continuar sonhando e não retornar a tortura vigilante da ameaça do controle estatal.

Celebramos os avanços no continente e em uníssono sabemos que o Congresso de La Paz será um marco na história da criatividade  latino-americana. Uma nova narrativa de mudança social tem rompido e transcorrido como um fantasma vestido de palhaço por toda América Latina. É o fantasma da cultura viva comunitária.

Há tempo dizemos: “Estamos em caravana permanente, porque estamos transformando a vida aceleradamente.”

Santini disse, ao final, também com fogo nos olhos, rememorando a Caravana que nos transformou a todos e todas: “São os novos heróis latino-americanos!”

 

 

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